sexta-feira, 13 de outubro de 2017

O PAPEL DA MÚSICA NAS DIVERSAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS

Postado por Noticiando PB  | 


Por Magnolia Calegário[1]
Essa é a segunda matéria com este tema. Para conferir a primeira matéria acesse no link: http://www.noticiandopb.com.br/2017/10/projeto-besouro-o-papel-da-musica-nas.html


Entrevista - Vitor – Morador da Cidade, que faz trabalhos na tribo wai wai.
- Você é de que tribo? – perguntei eu.
- Não é tribo, é aldeia. – disse ele me corrigindo. – Sou da aldeia wai wai.
Não perguntei o porquê não poderia se falar tribo. Achei deselegante.
- Eu queria saber como a musicalidade interfere na organização da aldeia. – indaguei eu.
-Como assim? – perguntou Vitor.
-Na organização, por exemplo, no que as pessoas fazem na aldeia, por exemplo, rituais, na caça...Enfim, no dia a dia da aldeia.  – expliquei melhor.
-Lá, em relação a flauta, a música, começou a ser expandido pela religião. Quando existia mesmo a 40 anos atrás, na minha época, a música era usada para conquistar a mulher. E era na flauta de osso de veado. Era um atrativo para chamar a mulher, tanto para encantar o homem ou a mulher, variava, entendeu? Só que agora não estão fazendo porque já perderam essa cultura. - disse Vitor.
-Entendi – disse eu.
(A música na tribo uai uai era um atrativo para o sexo oposto. Na minha sociedade era o corpo e o dinheiro. Em uma sociedade como a uai uai, a 40 anos atrás (portanto com muito da cultura preservada) em que nem o dinheiro, nem o padrão estético são o centro das atenções, era natural que “os atrativos” fossem outros).
-O que é a música para a tribo wai wai, ou para você ou para a tribo wai wai. O que é música?  – perguntei, me esquecendo totalmente de usar o termo aldeia.
-Música é coisa do dia a dia deles, coisa do cotidiano. É diferente da cidade, que tem vários ritmos. É o som dos pássaros, é o som do vento, da chuva. É bom demais. É o mesmo que você está assim na natureza. Eu me sinto melhor na aldeia do que aqui na cidade. – respondeu Vitor.
(Pensei em quantas vezes ao dia ouvimos música; o quão presente ela está no nosso dia a dia. Muito pouco. A música diária é o telefone tocando, o barulho do metrô, dos ônibus, dos carros de som. Uma vez ou outra ela aparece tímida, mas desaparece em segundos para dar lugar a um outro som irritante qualquer. Para os uai uai música era cotidiano e estava presente em todo o ambiente, o tempo todo. Deve ser muito bom).
- E há algum tipo de resistência por parte da aldeia com a música que vem de fora da aldeia? Como se fosse um processo de perda de cultura musical? – perguntei eu.
-No caso o que está se perdendo com os anos é o seguinte, eu digo por experiência própria, resgatar a gente não resgata, mas tenta buscar a cultura que era antes. Por exemplo, a flauta tá se perdendo na música, as plantas medicinais estão se perdendo, o artesanato também está se perdendo. É uma questão não no todo, mas aos poucos.  Porque os que sabem são os mais velhos, que estão morrendo, e os mais novos não se interessam. Por exemplo, eu sou mais jovem e não procuro me dedicar, entendeu? Procuram se dedicar as novidades da cidade, as novidades do cotidiano no caso a atualidade. – disse Vitor.
(Embora ele não dissesse diretamente, entendi que estava havendo uma perda cultural).
-Entendi – disse eu. - Para a aldeia wai wai ou para você o que a música é capaz de fazer?
-É um coisa bem difícil se a gente for buscar retratar. É uma coisa muito linda que eles tem. Somente coisas naturais. Nada assim artificial, é natural mesmo. Do bambu, da folha de uma árvore que tem lá que eles fazem flauta. Até aprender a fazer isso aqui olha...
(Ele então junta as mãos em forma de concha junto da boca e nariz e faz um som parecido com o do vento uivante).
- ...Soprar assim na mão. Tudo é coisa assim nova para mim, para eles não porque é coisa deles, que eles buscaram. Bem porque eles não vieram aqui do Brasil, eles vieram da guiana inglesa, e ficaram aqui. E eles trouxeram muitas coisas boas. O som do tracajá, o jabuti. O casco do jabuti é meio oval. Aí coloca uma massa dentro e faz (ele imita um som agudo cuja onomatopéia é “tum tum tum”). É um som que parece igual teclado. É magnífico. Só você vendo mesmo. Eu tenho gravações, se você quiser...
- Ah quero! – disse eu de supetão.
Ele riu da minha ansiosa resposta. Eu queria mesmo.
-...Eu tenho da flauta também. Deixa eu verificar aqui se eu tenho da flauta. É uma coisa magnífica. – disse Vitor.
(Vitor começou a procurar no celular.)
-Você nunca foi lá na aldeia não? – disse Vitor.
-Não. Queria muito ir. - respondi
No dia da divisão, uma das professoras do projeto nos alertou da questão do wi-fi e isolamento. Peguei o campo na cidade pois era o último (em novembro) e achei que na data já estaria de férias. Mas não. Eu estava no meio da semana de provas, fazendo trabalho em grupo pela internet, e estudando para as segundas chamadas de provas que se acumulavam como uma bomba prestes a explodir na minha mão. De uma forma ou de outra, foi bom eu ter ficado na cidade, porque sem wi-fi estaria reprovada.
Enfim, pedi a Vitor para me adicionar no whatzapp, no facebook, anotar meu e-mail e pedi para me mandar qualquer tipo de material musical indígena ou quilombola.
-É mais indígena que eu trabalho... – disse ele.
-Eu sei que são duas coisas completamente diferentes. – disse eu.
Um amigo de curso havia me contado que indígenas e quilombolas odeiam que confundam suas culturas. Por isso fiz o comentário acima.
-E muito! – disse ele.
-Mas se você tiver alguma coisa me manda, porque eu me interesso pelas duas áreas. – disse eu.
-Eu acho legal trabalhar na área quilombola. Eu recebi uma proposta agora do estado. E vai ter essa proposta da área quilombola e da área indígena, mas aí eu prefiro ficar na área indígena. Até essa pós que eu estou fazendo para a UFF vai ser direcionada para a área indígena.
Era assim que o Programa de Extensão funcionava. Era um programa de pós graduação para professores do município. Nós alunos íamos para auxiliá-los e desenvolver nossos próprios projetos ligados ao tema, obviamente. Durante o ano discutíamos textos, trabalhávamos os princípios do projeto, para que ele fosse da melhor maneira executado. Tudo era iniciado de maneira genérica e ia se tornando cada vez mais objetivo. Os alunos que recebiam bolsa PROEX produziam artigos para a Semana Acadêmica.
-O Ivo (um morador local amigo do Projeto) me passou umas músicas religiosas, que são gravadas apenas com as funções do teclado e com voz. Eu achei tão legal. São músicas wai wai. – comentei.
(Ele procurava alguns materiais no celular para me passar).
-Tem dicionário da língua wai wai também. Tem a história de porque perderam essa cultura. Essa transformação, é difícil reverter, mas também não é impossível. Trabalhando coletivamente. É muito legal isso aqui... – disse Vitor.
(Ele me mostra pela tela do celular o título de uma obra.)
-Fala de um cacique, que era pajé, e se converteu para a religião. É muito legal, quanto mais você lê isso daqui você tem a curiosidade, eu já li três vezes isso daqui. Eu gostei. – disse Vitor.
- Me manda essas coisas! Vou te adicionar agora no facebook.- disse eu.
Adicionei.
- Tem o dicionário indígena também. Fomos nós que fizemos, por aquela questão: Porque no (dicionário) wai wai só está o wai wai e o significado. Em wai wai tem como você pronunciar em português mesmo. Aí depois tem o significado. Assim que nós fizemos. Muito bacana, por exemplo aqui olha:
(Ele me mostra da tela do celular uma das páginas do dicionário wai wai. Ele mostrou a grafia da palavra em wai wai que soava como “arnieró”).
- Olhe: “Arnieró”.  Isso é: “o que come”. Aí tem arnieró em wai wai e arnieró em português. Então você pronuncia normal. – disse Vitor.
-Que legal. – disse eu.
-Aí nós fizemos. Deu um trabalhão danado. Deu quase 6 meses para fazer isso aqui. Tem a lei também de lá. Tem o vocabulário antigo mesmo, no dicionário. São 61 páginas, aí nós resumimos para 27 páginas. São palavras do cotidiano.
(O trabalho para preservação da cultura me chamou muita atenção, pois mostrava que a identidade daqueles povos era muito importante para eles, principalmente os mais velhos. E que infelizmente tal identidade estava se perdendo devido a inevitável inserção desses povos no mundo globalizado, seja para lutar por suas terras usando o Direito brasileiro, seja para sobreviver através de formas mais rentáveis do que o artesanato apenas. Enfim, para não serem mais tão machucados como já foram, eles expõe sua cultura a um avalanche de informações que acaba conquistando os jovens e comprometendo a continuação das suas tradições.)




[1]Magnolia Calegário é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira. Administra a página “Poesias de Magnolia” e é vocalista da banda “Magnolia”.

Autor

Noticiando PB

Total de visualizações de página

Subscribe to our Mailing List

We'll never share your Email address.
Copyright © 2013 Noticiando PB. Powered by Blogger.
Blogger Template by Bloggertheme9
(83) 9 9618-4861 noticiandopb1@gmail.com