quarta-feira, 18 de outubro de 2017

PROJETO BESOURO O PAPEL DA MÚSICA NAS DIVERSAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS

Postado por Noticiando PB  | 



Essa é a terceira matéria desta série, confira as anteriores nos links: Para conferir a primeira matéria acesse no link: http://www.noticiandopb.com.br/2017/10/projeto-besouro-o-papel-da-musica-nas.html
Por Magnolia Calegário[1]

Entrevista – Gustavo – Quilombo Y
- O que significa música para a comunidade, pra vocês?- perguntei a Gustavo.
- É importante para nossa cultura. Os meus primos que fazem música. A música é a cultura nossa. É a música que é inventada, ela tem tudo a ver com a cultura negra. O meu tio Tadeu, ele tira umas música (ele canta um trecho de uma música quilombola) É uma música que tem que ter uma cultura que nem nossa. Nós temos o “Barco da Comunidade”, que a gente também tirou: “São Benedito, antigamente você se santificou, agora você é um barco...” – disse Gustavo.
(Essa fala de Gustavo confirma o comentário que fiz anteriormente na entrevista do João Carlos, de como a música estava envolta no exercício/resgate cultural).
- Então é aquela música que ela tem que ter cultura nossa, como sendo cultura de nós lá mesmo. – continuou Gustavo -  Então os meus tio, eu acho que eles estão até aqui, é muito bom você conversar com eles. O Tadeu é uma pessoa muito bacana, Marcelo também, eles tiram bastante música. Música cultural. Tem a ver com nós. As músicas que eles tiram é umas músicas que tem tudo a ver com a nossa raça, com a nossa raiz, entendendo? Conta a história da área quilombola, as histórias nossas assim do rio, entendendo? Então a música para nós é uma cultura, uma cultura que tem tudo a ver com a gente.  Então o grupo de pagode dos meus primos aí que eles tocam, eles tocam bem. Orlando, Rômulo. Eles estavam até um tempo lá no Rio, sabe? – disse Gustavo.
-Sim. Na Festa da Ramada. – disse eu.
-Então eles são umas pessoas assim, que as músicas que eles tiram, os pagodes, tem tudo a ver com a cultura nossa. Então eu acho que a música, ela vem da nossa raíz e é inventado tendo tudo a ver com nós, com a nossa raça. Cada comunidade tem vários compositores. Dois, três, quatro, cinco. São pessoas que se foca naquelas música que o estilo e as letra tem tudo a ver com a raça nossa. -  disse Gustavo.
(Ele, por si só, começa a falar de outros aspectos de sua cultura. E eu, como boa ouvinte, me atentei a tudo).
- Tenho 42 anos, completei agora, início de outubro. Tem um colega meu que fala pra mim que não tinha idade. Não! Papai tem quase 70 anos, mas a gente é umas pessoas que come muito peixe, a gente não gosta de comer carne com hormônio, que nem o frango. Se tiver o peixe, todo dia eu como peixe. É um costume nosso. Então é muito difícil negro adoecer. Você chegar no Quilombo Y e ver uma pessoa doente é muito difícil. Eu acho que quando eu adoecer é para morrer, porque eu tenho 42 anos e nunca fui em médico.
(A Amazônia é muito rica em substâncias medicinais, e vive sendo explorada por estrangeiros, que tomam para si patente de remédios lá encontrados. Como disse, o povo quilombola teve que se adaptar a natureza e uma dessas adaptações foi a medicina natural).
Tadeu sabe muito remédio. Papai sabe muito remédio também. Para gastrite ele sabe o remédio, que a gente toma, se sente bem, como a casca do pau rosa, do roxo do pau. Então é uma coisa medicinal. Quando você ruim do estômago, e seu estômago amargo, a gente vai no mato e tira uma casca de paracanaúba, coloca dentro da água. É cultura nossa, nós fomos criados com isso. A gripe é simples, a gente bate o limão com alho, aí bate tudo bacana. Todo mundo fica bom.
            - A questão da música para a organização da comunidade, para a organização social, como que é? – perguntei a Gustavo.
             - Aqui na Cidade, a organização social... – respondeu ele.
          - Não, não. Do quilombo, da área quilombola. – interrompi eu.
- Ah, do quilombo. Porque a organização social ela é tudo em conjunto. Nós tem uma relação, uma organização social da área quilombola com as pessoas que viajam muito, que são mais instruídas do que eu, que é muito boa, porque tudo tem que ser junto, entendendo?
(Essa ideia de coletivo inexiste na minha “tribo ocidental”. Quase ninguém pensa coletivamente. O individualismo é a marca da sociedade contemporânea. Se as pessoas se preocupassem com o coletivo e não apenas com si próprias e seus entes próximos, com certeza o mundo seria outro).
- As organização tem que apoiar a cultura que a gente tem, das dança, é uma dança étnica. – continuou Gustavo - A gente gosta aqui é muito o carimbó, é uma cultura que a gente tem assim, do Estado do Pará. A gente gosta muito é de uma música como o aiué, que é uma cultura nossa também. É uma dança que meus irmãos dançam, meus primos. Tem vezes que a gente sai, tem coisa para resolver.
Ele continuou:
- É igual eu aqui. Mas enquanto eu aqui eu lá. É bacana quando você em outra comunidade, como eu tava no sábado, aí você vê: cada um quer tocar uma música melhor, inventada lá mesmo, entendendo? É muito inventada as música dos meus primos, que eles sabem muitas músicas. Pega uma viola. Aí você diz porque você inventou aquela música. Porque a gente, nós negro, em todo o lugar nós sofre o racismo, entendendo? Você tem que ter isso. O racismo ele nunca acaba no Brasil.
(Essa fala de Gustavo confirma que além da música estar envolta no exercício/resgate cultural, ela se preocupa em  refletir a realidade social, o que e torna cada vez mais raro no mercado fonográfico da minha “tribo ocidental”. Os jovens, quase todos, nem ouvem música que fala do seu próprio país, no máximo, ouvem música em português).
- Hoje você vai nos colégio. Teve um colégio aí. Eu tenho umas primas que foram criticadas só porque são negra. Mas eu me orgulho muito de ser negro por que eu sou feliz.O negro é uma raça. Então eu também acho bonita a sua cor. Com todo respeito. Eu acho que cada um merece ser respeitado do modo que você é. Apesar do que ele seja, seja homossexual, seja tudo.  Mas eu sou uma pessoa que, o que eu gosto de você, para mim não importa o que você é. Independente do que você tomou uma decisão para você ser, se eu gostar de você, eu vou achar que você é pessoa legal, uma pessoa muito bacana. Porque eu tenho que admirar aquilo que você é. Eu acho que comigo é assim. Me dou muito bem com as pessoas, graças ao meu bom Deus. Todo mundo gosta de mim. O meu apelido é (ocultamos para preservar identidade), porque eu gostava muito do filme. Mas eu agradeço muito meu Pai que tá vivo. Meu Pai ter feito eu negro, que a minha raça é uma cor que eu gosto. Todas as raças eu gosto. Não vou dizer que gosto de uma ou outra. Eu gosto da cor de vocês, uma cor branca, clara, com todo respeito. Eu queria que todo mundo fosse que nem eu, que não ia ter preconceito no Brasil. Aqui na cidade é muito preconceito.
(Racismo. Uma ferida aberta no Brasil. É muito triste ainda ouvir que pessoas tão especiais como Gustavo sofrem com algo desse tipo).
Gustavo continuou sua fala:
-Como eu falo com meu pai, no Rio de Janeiro, ninguém conhece você não, só fala se conhecer. Você pode até perguntar uma informação, a pessoa não está nem aí para tu. Aqui na cidade todo mundo fala bom dia. Então a nossa cultura daqui é assim. Na nossa comunidade ninguém mata ninguém, é uma comunidade que ninguém briga. Vai ter uma festa agora. Todo mundo conhece essa festa do Quilombo Y. Agora que levam polícia, mas não levavam. Porque? Os caras que são lá da comunidade, são cabeça, eles conversam. Tal comunidade chega. Eles perguntam de onde é. E falam que se algum de vocês brigarem, pega o barco de vocês e vão embora. Porque a nossa comunidade não está aqui para brigar, para matar não.“Nós cai de porre”. Vê muita gente caído. Mas não vê ninguém mexendo com ninguém. A nossa cultura foi bem criado. Papai e mamãe me deram uma criação que até hoje eu não sei se vou conseguir dar para o meu filho.
(O senso de coletividade obriga a um compromisso de todos pela preservação da paz social. Temos muito o que aprender com os quilombolas...)
-Mas se tem uma coisa errada comigo, me chama e conversa numa boa. É assim. E é muito bom, a festa lá é muito boa. Tem umas festas muito legais. Quinta e sexta tem festa lá. A pessoa vai ver todo tipo de música, todo tipo de dança que é inventada pela comunidade a gente dança. É uma mistura de dança lá, cada um quer ser melhor do que o outro. Mas é só naquele momento lá para dançar, para se divertir. Então eu acho que a nossa comunidade é uma comunidade muito evoluída, para quem conhece ela. É uma comunidade que não tem invasor, não tem desmatamento, não tem matação de bicho lá. – continuou Gustavo.
 - Uma coisa que me aproximou para conhecer a música quilombola, é que tudo que gira em torno do tema, enfim, da cultura quilombola, é que tudo tem e é feito com muita força e com muita intensidade. Eu não tinha conhecimento profundo, o que eu sei dos quilombos está na literatura histórica, nada além disso. Mas quando eu cheguei aqui, me falaram que o vermelho para vocês era chamado “encarnado”. Aí eu senti essa questão da força. O que vocês falam, a forma como vocês falam, o jeito como vocês dançam, o nome das pessoas tem sílabas fortes, tem muita intensidade, entende?- disse eu.
Ele me interrompeu para fazer-me uma pergunta.
- Deixa eu te perguntar, qual o seu nome? – disse Gustavo.
- Jéssica. – disse eu.
-Meu nome é (ele disse seu nome quilombola, que omitimos para preservar sua intimidade). Meu pai que colocou. Nós temos uma irmã que mora em Goiás, o nome dela é (nome quilombola preservado). O nome do meu outro irmão é (nome quilombola preservado). Meu pai que colocou. O meu é (nome quilombola preservado). É complicado. Mas eu acho assim é que nós tem uma cultura que nem indígena. Nossa voz, nossa fala, ela tem outro sotaque. As nossas cor, de primeiro, como você falando, é encarnado para vermelho, é umas coisas diferentes.  Muitos branco aqui arremedavam nós. Arremedar é um sentimento de xingar as pessoas. “O preto fala assim”. “O preto fala isso”. Então eu acho que nós fomos muito criticado. Quando a gente estudava aqui, que nós vínhamos do interior. No colégio, eu era criticado pelos meus colegas. Mas depois foi tendo as palestra, foi tendo aquelas coisas, e foi normalizando. Minha última esposa era loira dos olhos azul, muito bonita. Aí não deu certo, porque o contato dela comigo era pouco, porque eu viajava muito para trabalhar. Nós nos separamos numa boa. Hoje ela está em Manaus, ela quer voltar, eu tenho um filho muito lindo, o Bernardo (nome ficto para preservar intimidade). Filho meu com ela. Tenho 42 anos e só um filho graças ao bom Deus. Mas eu sou um cara muito cabeça, moro sozinho, tenho minha casa. Papai também, quando ele vem, ele mora comigo. Ele é solteiro, mas é uma pessoa que eu admiro muito a amizade do meu pai com a minha mãe, eles tem um relacionamento muito bom. E eu gosto muito deles. Eu amo muito meu pai e minha mãe. De resto, sou uma pessoa humilde, tenho uma vida boa, em qualquer lugar que tenho que ir, eu chego e vou em paz, detesto briga.
Depois a conversa tornou-se mais leve, Gustavo disse que era flamenguista porque nasceu negro no berço vermelho, disse que trabalhava como mototaxista e ofereceu-nos desconto. Depois mostrou fotos da família no celular. Gustavo tinha o jeito engraçado/cômico natural que só as pessoas de bom coração conseguem ter. Era humilde e sábio. Daquela sabedoria mágica, que nasce com as pessoas. Ele chegou a nos visitar mais vezes, e minha hipótese se confirmou. Era um homem bom, uma das pessoas mais belas que já conheci.  O fato dele ter feito alusão aos homossexuais de forma positiva já o diferenciou. Muita gente demonstrou homofobia na Cidade. Gente culta. O que me deixou muito triste.
Mais tarde, em uma conversa em grupo, Gustavo assumiu uma posição religiosa em relação aos homossexuais, no sentido de que deveriam se “converter”. Mesmo assim, sua postura foi notoriamente menos agressiva do que as outras “opiniões” que encontrei nas pessoas em geral.  Um dia no meio de uma conversa em grupo, ele disse algo do tipo: “Não tenho como saber se o fogo fátuo é real ou não, não sou médico”. Eu prontamente o corrigi: “Não, você é médico sim”. Ele disse que não, com toda humildade. Eu afirmei: “Você cura a alma das pessoas”. Ele ficou meio sem o que dizer. Mas agradeceu.



[1]Magnolia Calegário é uma cantora, compositora, poetisa e escritora brasileira. Administra a página “Poesias de Magnolia” e é vocalista da banda “Magnolia”.

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Noticiando PB

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