sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

PROJETO BESOURO: O PAPEL DA MÚSICA NAS DIVERSAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS

Postado por Noticiando PB  | 


Por Magnolia Calegário 

Julio, cacique, wai wai.

         Essa entrevista foi durante o Seminário indígena também. Eu entrevistei o cacique wai wai Julio, do qual já tinha ouvido falar no grupo de extensão. Dei a explicação inicial, a mesma que havia dado em todas as entrevistas: de que eu participava de um projeto de extensão, e que pretendia escrever algo envolvendo a música, etc. E fui para as perguntas:

         -Como a música interfere na organização da sua comunidade? – perguntei eu.
        -Como assim? Por exemplo? – perguntou ele.

        -Na organização por exemplo, nos rituais, nos jogos, ou na colheita, ou até mesmo na questão da organização social; quem fica com a religião, quem fica com a colheita... – especifiquei eu.

        - Temos épocas diferentes; festa, religião, a colheita... Fazer algumas atividades. Mas para isso, cada momento quando a gente realiza as coisas. A atividade festa: tem a música só para festa. Tem canto só dos animais. Tem canto só das mulheres. Hoje em dia nós realizamos, no dia de domingo, faz tudo, fala um pouco de Deus. Quarta feira também temos culto, assim geral, para a comunidade. Dois dias especial para fazer o culto, para louvar a Deus. E na sexta feira as mulheres vão na Igreja, fazer oração, conversar, e cantar, e se organizar, o que nós vamos fazer amanhã, então para isso elas tem dia. Agora nada interfere nas coisa; quem é religioso não tem nada a ver nos cantos da festividade. 

Os cantos da festividade diverte, mas não impede que eles estejam no caminho. Para nós é isso: diversão é diversão. A questão de crença é diferente, mas não te priva das coisas que são boas. – respondeu ele.

       - O que vocês acham que a música é capaz de fazer? No sentido de transformação, no sentido de “deixar mais feliz, deixar mais triste”, ou de “mudar a vida”? – perguntei eu.
   (A experiência com os outros entrevistados estava moldando minha fala, o cuidado ao me expressar)

        -Música fala das coisa profunda, por exemplo. A linguagem musical nossa é diferente do que conversa oral, porque a música identifica. Reforça algo que fortalece a mente. Por exemplo, esses animais: eles estão representando o dia. Mas tem dia que eles não estão cantando. Tem dias que eles tão de repouso. Tem hora que eles ficam parado, mas tem hora que eles se unem. A nossa música nos ensina a ser igual a eles; igual a natureza. Então a gente aprende por meio da linguagem musical. E é importante, porque o jovem não conhece a linguagem da natureza, mais da música da natureza. Oferece as coisa ruim, bom, e a vida, força. A natureza também sinaliza quando você for fazer algo amanhã, a natureza sinaliza: “Olha, você não vai”. Aí essa musica conta isso e através disso nós recebe, nós interpreta as coisas . Minha mente, por exemplo, eu estou querendo fazer, mas no mesmo tempo, a linguagem da música, a música fala, quando você pensa “Não está certo, não vá”.  Ai eu escuto a música. Não dar tempo, não vai dar certo eu trabalhar, eu vou fazer uma outra coisa, eu vou fazer em um outro dia. Se o dia estiver bom pra mim fazer, eu vou. Quando você amanheceu bom, alegre, feliz, você vai fazer.

       - Entendi. – disse eu.
       - Se sua tribo fosse definir a música, conceituar, dizer o que é a música, o que você diria, ou o que vocês diriam? – perguntei eu.

       - Tem que bastante trabalhar, ne? Para conceituar, para poder ensinar e dar tudo certo. Para não ter desconfiança, não acreditando. Aí tenho que definir mesmo! A música fala, até porque ela vem com muito preconceito para poder mostrar ou apresentar, assim que os velhos nos ensinam. Música e beija flor. O beija flor não para de procurar as coisas. Se alimenta com coisas boas. Não estraga a sua vida. Então a música diz: você tem que ser igual o beija-flor, você tem que ser pela pessoa que não para de procurar. Não descanse, se você descansar, as coisas vão cedendo. Enquanto o tempo corre e você está parado, você nunca alcança as coisas que você quer, onde você quer chegar. Tudo isso a gente aprende através da música. – respondeu ele.

      - E como é que é a organização lá na comunidade? Eu estou entrando no Projeto de Extensão esse ano, aí quem fica responsável pela religião? Quem fica responsável pela colheita? Quem fica responsável pelo o que? – perguntei eu.

       Nós temos hierarquia, nós temos o cacique, e aí o cacique divide as coisas. A nossa igreja está na mão do pastor. A atividade agricultura fica com o vice cacique. O cacique se responsabiliza por todas as coisas. No faz isso, você faz aquilo, no dia tal você faz, ele não faz. No dia tal nossa festa vai organizar. Nosso culto vai ser assim. Então ele vai falar o pastor, e nós vai escutar. É assim que nós organiza. Mas não impede pastor, o culto. Não tem esse negócio de impedir não. – respondeu ele.

       - E quem fica responsável pela caça? – perguntei eu.
      - Caça em geral. Cada dia, cada um vai procurar a sua caça. Agora na hora de fazer evento, tem gente para realizar. Tem gente pra convocar reunião, para marcar o dia de nós realizar a caça. Para isso nós tem que sair com o grupo, tem gente para isso também. Os mais velhos, que conhecem o lugar. Tem lugar em que não pode andar descuidado. As vezes a gente se perde. Pra isso tem que ter uma pessoa para guiar o grupo. – respondeu ele

     - As mulheres tem uma função específica, ou é a mesma que os homens? – perguntei eu.
     - Tem. Organização. As mulheres toma conta das coisas. Por exemplo, a aldeia está suja, as mulheres se reúnem para fazer a limpeza. Para isso, as mulheres precisam se organizar também. Não depende dos homens, atividade só para mulheres, que pertence a elas. – respondeu ele.

     - E essa organização que você me falou, ela muda de tribo para outra? O Mapuera tem uma, A waiwai tem uma?
     - Isso, isso. Mas quase igual. O movimento quase igual. – respondeu ele.
      Agradeci muito a entrevista e me despedi do cacique Julio.

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Noticiando PB

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